statement

Minha experiência com a arte se constitui, essencialmente, em um processo de descobrimento e desenvolvimento de identidade, cuja trajetória está marcada pela transformação e pela superação. Não se trata, porém, de um movimento de sentido único: ao mesmo tempo em que compõe esse caminho, a arte o reflete e o alimenta. 

Entendo que, nesta minha experiência, a arte apresenta um sentido de movimento, um processo de retorno a um legítimo “estado de vida” após momentos em que este parecia esmorecer. Vivi adversidades que, de alguma forma, foram subjugadas pela arte, e esta arte expressa justamente essa dinâmica.

Assim, ao desenvolver a série de pinturas baseadas em fotos tiradas por mim no Memorial de Imigração Judaica, pude me perceber cada vez mais como um judeu diferente daquele que eu acreditava ser até então: me entendi mais dotado de opinião, menos condescendente a certos ideais e dogmas que me eram impostos. 

De forma semelhante, quando me aproximei da comunidade gay, vivi uma verdadeira ruptura com certas formas de se entender as coisas, formas que me pareciam arraigadas. Nos quadros que pintei após esse processo, senti estar expressando uma nova identidade, que via a questão da sexualidade de maneira livre e desprovida de julgamentos. Na série dos animais não discriminei cores, e senti vibrar em minha pintura tons que a mim me pareciam vedados.

Desta forma, o aprimoramento artístico se mostra imperativo, pois com ele se pode desenvolver um pensamento poético apto a assimilar esses movimentos do cotidiano e a dinâmica dos afetos, ao mesmo tempo em que nos permite engendrar novas técnicas e habilidades capazes de cristalizá-los.

Concluo, assim, que em minhas obras carrego esse movimento que constitui minha existência, seja como memória ou como projeto de vida e de arte.

© 2020 ARIEL BUSQUILA.