comparação

As obras selecionadas para realizar tal exercício comparativo são “Frutas”, uma tela em acrílico realizada por mim recentemente, e “Natureza morta com maçãs e laranjas” de Paul Cézanne. Primeiramente, a comparação entre esses dois trabalhos se dá no âmbito imagético, em que podemos, imediatamente, constatar as imagens semelhantes pintadas em ambos os quadros. Para além da comparação primeira, vemos também o uso de tonalidades semelhantes entre as duas pinturas com o uso de tons terrosos.

 

Embora as pinceladas dessas duas produções sejam distintas - as de Cézanne são mais precisas e exatas, as minhas são mais livres e soltas - o resultado configura-se de forma semelhante, com representações sobre o real, nesse caso, a representação é de frutas sobre uma mesa.

 

Mesmo que haja essas semelhanças materiais e formais, as diferenças de sentido se apresentam, primeiramente, quando se constata as épocas distintas em que ambas obras foram produzidas. Uma coisa foi Cézanne representar a natureza morta em seu quadro no século XIX, e outra coisa sou eu, artista do século XXI, retomar essa forma de representação, mas ressignificando-a de acordo com meus interesses e sentimentos contemporâneos. A divergência de sentido, assim, é inerente ao próprio deslocamento do contexto em que se insere a obra e seu criador: mesmo o que se poderia chamar de uma reprodução perfeita de uma obra já existente não carregaria, jamais, o mesmo significado, nem tampouco apontaria os mesmos sentidos, daquela em que foi baseada, pelo simples fato de não ter sido criada nas mesmas condições em que a anterior.

 

Em compasso com as ideias de seu tempo, é a intenção presente em Cézanne de reter uma certa essência formal de seus personagens, resguardando-lhes de influxos exteriores, que o leva à retomada da natureza morta; esse fim, entretanto, já não orienta a produção do artista do século XXI, a quem o âmago do objeto, desprovido de contexto e materialidade, já não representa o motor de sua produção. Nesse mesmo sentido, vale notar que a busca pela própria essência da arte e do artista já parece cada vez mais ultrapassada, tornando-se gradativamente notório o descompasso entre a arte, de fato, e os critérios utilizados para se definir quem é ou não artista.

 

Assim, resta claro distanciamento entre o sentido da obra de Cézanne e a minha: enquanto na primeira a essência é objeto de busca (do objeto, no caso), na segunda é objeto de dúvida, de questionamento e de subversão.

© 2020 ARIEL BUSQUILA.