o que quero quando pinto

Quando pinto, busco uma realidade que atravessa o espectador. Atravessar o espectador tem para mim o sentido de criar um impacto emocional. Ou seja, busco um efeito sentimental no espectador. Através da reflexão com base no texto "paisagens artificiais" de Laymert Garcia dos santos vejo que em minhas obras é imanente uma percepção de algo que não é "real" e ao mesmo tempo artificial, por não serem o objeto do que está sendo retratado.

Quando relaciono minhas paisagens com algo que é presenciado ao corpo e alma humana, como o "orvalho e o bambu", onde compreendi do texto que a vivência da natureza deve ser real, onde a natureza exista realmente e seja o objeto. Objeto no sentido de algo que exista de uma forma metafísica. Vejo que a relação entre meus quadros e o real seria algo distante. Em meus quadros a realidade se realiza no momento que o espectador vê meu quadro, ou vive meu projeto artístico, ou experiência um momento de vida que se tornaria real pois esse sim seria o objeto em si.

Entendendo do texto que ver uma paisagem é viver um objeto que já está na natureza, como algo estático em um ambiente que apenas seja metafísico, onde uma representação fosse artificial. Em meu trabalho faço uma figuração deste "real" que faz de meu trabalho uma paisagem artificial. Ou seja, posso viver a paisagem, onde essa vivência virasse objeto igual a uma performance se tornar uma obra. Mas minha produção, para criar a obra, a tornaria artificial a não ser que se tornasse objeto, tanto a criação quanto a apresentação. Se não, seria artificial por não ser algo real. Algo que já seja existente na natureza, que seja orgânica no sentido natural de ser, como a paisagem em si. Já minha obra mais recente: Cavalos, 80x120, acrílico sobre tela, seria uma maneira de trazer a paisagem para um plano do artificial pois sua relação obra-mente, como diz no texto que ao traduzir uma paisagem para a mente faria dela uma paisagem artificial, minha obra usufruiria de um artifício para ser vivenciada tanto na mente quanto no corpo. Mas não faria parte de uma vivência natural. Portanto uma paisagem artificial.

Em minha relação homem-natural, no qual o meu entender do texto diz que a relação entre os dois seria a experiência de viver a paisagem e representá-la de formas diversas, que ao ser representada, fosse artificial. O que sinto que faz parte da natureza de meu trabalho fosse a transcendência de meu trabalho. O meu estado de espírito ao pintar, o que a obra criou de espiritual, e como isso é transmitido ao espectador.

Já em minha relação homem-máquina, enxergo um gesto criador sistemático de pintar. Onde no texto se discute a controvérsia de fazer uma paisagem meio a tecnologia, ou seja, uma paisagem artificial, na qual fosse tirada de seu habitat, a natureza, em meu trabalho enxergo esse mecanismo através de minhas técnicas artísticas. Através de uma inspiração, pinto quadros com diversas ideias.

O aparato que usa Bill Viola, é o da tecnologia-vídeo. Em meu caso, faço uso do aparato de tinta sobre a tela, que em minha opinião seriam meios relativamente iguais por serem meios tecnológicos artísticos. No texto se fala de vídeo e aparatos eletrônicos, no meu caso, tinta e tela. Os dois no caso produziriam paisagens artificiais. Seriam vivências artificiais da natureza, tanto na forma de representar quanto em sua experiência por não experienciar a natureza.

Ao se dar conta, que uma fração do que fazemos na arte talvez fosse algo visto na natureza real apesar do quadro ou de uma obra estarem materializados em uma representação artificial. Descubro, com esse texto, que minhas paisagens só alcançariam um nível de natural quando apenas existirem ou se tornassem coisa. E uma experiência de vê-las talvez fizesse de minha obra algo real, uma paisagem real, por ser vivida como a natureza. No caso, a obra na mente e ao mesmo tempo na tela fazendo parte de um momento que virasse objeto.

© 2020 ARIEL BUSQUILA.